Como os poetas começam a escrever? (#Poesia Ping Pong 1)

Leia a respostas para duas perguntas de um leitor e saiba algumas opiniões sobre o que é “ser escritor”.
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Por mais estranho que pareça, você não precisa dançar em volta de uma fogueira para se tornar poeta.

Há algum tempo eu vinha ensaiando postagens aqui no blog em que eu pudesse contar um pouco sobre meus processos de criação e interagir mais com meus leitores. Queria tanto partilhar o que eu aprendi nesses poucos anos de poesia quanto conhecer suas inquietações.

Assim, resolvi criar duas séries: na série “Poesia Ping Pong” responderei algumas a perguntas enviadas pelos leitores (você pode entrar em contato por e-mail ou facebook), enquanto em “Faça um Livro” tratarei mais detalhadamente  dos processos de compilação de poemas para publicação do primeiro livro, formas de publicar os livros, meios de financiamento, diagramação etc.

Para começar, tive um grande apoio do companheiro Gabriel Pedro, do grupo de poesia da UFSCar, que me mandou um conjunto considerável de perguntas, das quais resolvi responder as duas primeiras, que já dão pano pra manga, e deixar as outras pras próximas postagens da série.


1. Como iniciar? Há uma iniciação na vida de quem escreve?

Certamente há sempre um processo de “iniciação” na vida de quem escreve – e digo isso me referindo não só a quem escreve profissionalmente ou em termos de escrita criativa. Todas as pessoas que são alfabetizadas e aprendem a ler e a escrever necessariamente passam por uma transição, inclusive corporal: nossos corpos precisam aprender todos os gestos associados à leitura e à escrita, por exemplo. (Para se aprofundar sobre isso, ler Rancierè)

Meg Files, romancista e professora do Pima College em Tucson (EUA), diz que um bom modo de se começar a escrever é encarando algumas perguntas para saber quem você realmente é e escrevendo a partir de suas próprias experiências, transformando-as em outras coisas que possam ser refinadas. Assim, para ela, o bom escritor não é aquele que faz surgirem histórias e sentimentos “do nada”, mas aquele que melhor conhece seus medos, suas vontades, seus anseio e explora tudo isso em sua energia criativa.

E tudo isso é alcançando escrevendo de forma disciplinada, com trabalho – mesmo que seja a sua disciplina e a partir da sua noção de trabalho. Na última Balada Literária, Marcelo Rubens Paiva chegou a comentar algo sobre “escrever o mesmo romance a vida inteira”: isso não significa que um escritor não deva se renovar em sua escrita, mas que em geral os escritores vistos como “grandes” possuem interesses, projetos e projeções muito bem delimitadas.

Além disso, é sempre importante lembrarmos que junto a todo “””gênio””” (e a qualquer autor, na verdade) existe um processo de mediação editorial: mesmo no caso de publicações independentes, não podemos ignorar que existe uma construção sempre coletiva dos trabalhos literários – sempre há no mínimo um outro texto ou um outro indivíduo com o qual determinado autor se relaciona intrinsecamente.

Acredito ainda que pesquisar essas grandes temáticas associadas à escrita pode ser muito útil para ajudar um autor (seja iniciante ou não) a aflorar suas ideias.


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Seria Drummond um líder da “gangue dos poetas iniciados”? (Foto retirada do site de Leo Santana)
2. Há diferença entre escrever e produzir? Com o perdão da gramática, o que diferencia uma pessoa que simplesmente escreve e de um escritor? Há um momento no qual sentamo-nos e dizemos: Sou um escritor?

Por mais tosca que a resposta pareça, acredito que seja simples assim: nós podemos dizer “sou um escritor” quando resolvemos escrever. Não existe uma regra universal que defina um escritor, nem nenhuma espécie de checklist que você pode simplesmente seguir como se fosse uma estrada dos tijolos amarelos.

Mas talvez possamos dizer que uma diferença entre “alguém que escreve” e um “escritor” está no fato de que enquanto o primeiro pode somente escrever, o segundo mostra que escreve, é visto como alguém que escreve e age como agiria alguém que escreve. Isto é, a figura de escritor está imersa numa galáxia regida por históricos, imaginários, normas e técnicas específicos que se desenvolvem socialmente. Isso significa que, numa perspectiva cultural mais ampla, ser escritor está atrelado a ser reconhecido como quem escreve e a ter de lidar com essa condição.

No Brasil, mais especificamente em São Carlos, uma das pessoas que tem pesquisado e orientado trabalhos sobre essas temáticas é a professora doutora Luciana Salazar Salgado, coordenadora do grupo de pesquisa Comunica. A partir das teorias propostas por Dominique Maingueneau e de trabalhos advindo das Materialidades da Cultura, o grupo tem desenvolvido análises sobre o papel das mediações na gestão de autoria (ver, por exemplo, este artigo).

Para finalizar, diria que para além desse aspecto, nós podemos dizer para nós mesmos que somos escritores quando encontramos a pulsação dos nossos textos. Digo isso com base em Marcelino Freire, que em algumas de suas falas discorre sobre o modo como ele procura sempre escrever usando a pulsação do texto, e não sua pontuação. Isso é, apesar de certas normas se colocarem como fixas ou intransponíveis, o escritor deve saber decidir sobre seu próprio texto, explorar suas potencialidades e, também com alguma sorte, encontrar sua própria voz.

Aproveite ainda para ler:

Lembrando que se você tem alguma pergunta, entre em contato pelo e-mail ou pelo facebook, será um prazer ter você participando do meu blog  🙂

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2 comentários em “Como os poetas começam a escrever? (#Poesia Ping Pong 1)

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