Um mergulho invertido: “Inconfidência Primeira”, de Natalia Ribeiro da Conceição (#Breves Resenhas 2)

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Capa de “Inconfidência Primeira”, de Natalia Ribeiro da Conceição (Editora Patuá, 2016)

O mundo é bastante curioso. Ano passado, fui convidado pelo queridão Jorge Filholini (editor do Livre Opinião) para o lançamento do livro Eu Contra o Sol, do Alex Tomé. No evento, acabei encontrando minha amiga Graziele Vasconcelos, que logo me apresentou para a Natalia Ribeiro da Conceição, poetisa são carlense que eu desconhecia até então – eu deveria conhecer, mea culpa. Não demorou muito para que, na mesma noite, nós dois trocássemos livros – eu a presenteei com um exemplar do meu e ela ficou de me entregar um exemplar de Inconfidência Primeira, seu primogênito publicado pela Patuá, assim que chegasse a nova remessa.

Também tive oportunidade de ver Natalia conversando sobre seu processo de criação e publicação na 3ª Festa do Livro da USP São Carlos, onde conversamos mais um pouco e então recebi um exemplar para chamar de meu.

(Nota importante: a capa bonitona é de Leonardo Mathias e representa um mandi, espécie de peixe que foi ameaçada após o terrível atentado em Mariana e que é tema dos versos engolidos por lama de “Mapa-Mandi”).

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O livro é composto por seis partes, ao longo das quais a autora explora seu repertório poético de maneira bastante consistente, ora com o olhar mais aguçado a questões sociais (particularmente intensas em Interdições Interflúvios, com a primeira sendo incisiva ao tratar das [r]existências das mulheres), a explorações da linguagem em situações cotidianas mais amplas (Intervalos Verbetes Miojo), ao sentimento de habitar outra nação e outros modos de ser no universo (Internações, parte intimamente relacionada aos meses em que a poetisa morou na França) e aos diversos sentimentos que emergem quando experimentamos a alteridade (Interfaces).

Na orelha do livro, Fabio Saldanha chega a afirmar que a obra causa nos leitores a sensação de um mergulho e uma queda repletos de solavancos, com o que eu concordo em partes. Para mim, a leitura da poesia de Natalia é, sim, um mergulho: mas um mergulho invertido. De modo que, ao final, não se fica com a sensação do conhecimento profundo de algo, mas com a estranha sensação de se ter deixado no caminho muita coisa, de se ter alcançado um estranho nível de superfície que nos coloca nus diante de tantos questionamentos.

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Considero um livro que precisa ser lido na ordem que é proposta ao leitor: a disposição foi tão bem trabalhada, que talvez sua força esteja em exigir que o leitor se debruce sobre a obra como um todo, não sobre cada poema individualmente – os Verbetes Miojo, senti, criaram muito mais força quando os li depois de ler o restante da obra do que quando tentei começar por eles (o que não significa que já não tivessem uma expressão própria).

Natalia tem, enfim, uma força de extrema seriedade: não a força de quem joga ao leitor somente verdades nuas e cruas, mas a força trabalhada da linguagem de uma autora estreante com um projeto cuja própria arquitetura se parece com uma correnteza, correndo entre tempestades e calmarias sem nunca pretender a estabilidade ou a monotonia.


Leia poemas mais recentes de Natalia Ribeiro da Conceição na revista eletrônica mallarmagens : da mudez à lama das margens – quatro poemas de Natalia Ribeiro da Conceição.

Aproveite e leia também alguma das postagens anteriores:

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