Afinal, todo poeta deve publicar/ser publicado? (#Poesia Ping Pong 2)

As respostas aos leitores continuam, e dessa vez o papo é sobre um assunto quente: as publicações.
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Publicar um livro é uma aposta: como num jogo de dados, nunca é possível prever o desempenho exato de uma obra

Duas semanas atrás, dei início à série “Poesia Ping Pong” com o intuito de responder a perguntas de leitores companheiros do Poeta em Queda. Também previ o começo da série “Faça um Livro”, cuja primeira postagem sairá na semana que vem e  contará com a participação de convidados especiais – fiquem atentos.

Para essa semana, resolvi continuar respondendo algumas das perguntas enviadas pelo querido Gabriel Pedro, do grupo de poesia da UFSCar.

Lembrando que se você também tem interesse em enviar alguma pergunta, basta entrar em contato.

Agora, às respostas!


Ser publicado é um passo natural para quem escreve?

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Poeta esperando sua publicação acontecer “naturalmente”

A resposta nua e crua é “não“, mas a pergunta é boa e merece ser desenvolvida.

O que me parece problemático na colocação é a ideia de “passo natural”: na postagem anterior, falei um pouco sobre como ser um escritor está relacionado com você ser reconhecido por alguém como sendo um escritor e com você estar condicionado a uma série de fenômenos sociais sobre os quais você não necessariamente tem controle.

De saída, a figura de um escritor nunca é “natural”, e tampouco está ligada somente com o ato de escrever.

Neste sentido, podemos pensar em alguns aspectos relacionados a ser publicado:

  • Uma publicação é sempre uma publicação de algum textopor alguémde um modo específico. A publicação jamais se separa de seu suporte material e das instituições que permitem sua existência, e os processos envolvidos podem ser bastantes diferentes de acordo com essas variáveis – importa, por exemplo, se é uma publicação de uma novela ou poesia, impressa ou digital, impressa em jornal ou revista, digital em um blog ou em um .pdf, se a responsável pela publicação é uma editora pequena ou grande, uma pessoa física etc.
  • Há sempre valores extra-textuais mobilizados para decidir se um texto será publicado ou não. Enquanto alguns sites podem ter como intuito publicar qualquer conteúdo recebido, outros sites e também as editoras julgarão as obras de acordo com determinados critérios, de modo que sempre só se publica aquilo pelo que se tem interesse em publicar. E o interesse pode variar: talvez se considere a obra de uma importância intelectual, talvez o autor possua um público alvo já estabelecido e pode gerar um bom retorno para a editora, talvez a editora tenha ganhado algum edital que favoreça aquele tipo de publicação. Novamente, há uma série de variáveis.

Isso tudo para resumir: não há um caminho natural ou único para ser publicado. Mesmo que pudéssemos considerar que exista alguém no mundo que escreva de modo genial e cujos textos mereceriam ser publicados imediatamente, é sempre necessário que haja o interesse por sua publicação e, para isso, o autor teria que percorrer pelo menos algum dos dois caminhos: optar pela auto publicação,  financiando sua obra [o crowdfunding tem sido um caminho popular], ou encontrar modos para dar visibilidade à sua obra (inscrevê-la em concursos, criar um blog, enviar o original para um editora etc).

Dizer que ser publicado não é um caminho natural não equivale, portanto, a dizer que não existam caminhos.


Publicar é um dever do escritor para o mundo?

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Considerado um dos maiores escritores brasileiros, Raduan Nassar deixou de escrever em 1984. Foto: Eduardo Simões/Divulgação

Em linhas gerais, a resposta para essa pergunta também é negativa, caso a consideremos de um modo específico. Tentarei responder com um caso.

Raduan Nassar é o célebre autor de Lavoura Arcaica (1975), Um Copo de Cólera (1978) e Menina a Caminho (1997), sendo que esses dois últimos na verdade haviam sido escritos um bom tempo antes de sua publicação: enquanto Um Copo de Cólera havia sido escrito em 1970, Menina a Caminho reúne contos de 1960 a 1970.

Hoje, é bastante conhecido o fato que Raduan deixou de escrever em 1984 para dedicar-se a uma vida rural, vivendo atualmente no interior de São Paulo sem jamais ter voltado a se dedicar às letras. Ainda assim, segue sendo premiado: em 2016, chegou a receber um Prêmio Camões.

O ponto é: ele só pode ser lembrado como um autor que deixou de escrever porque um dia ele escreveu – e mais, escreveu com muito êxito.

A princípio, ninguém é obrigado a publicar (a não ser que algum contrato diga o contrário), ou sequer tem alguma espécie de “dever moral” de publicar. Mas vale lembrar que a inversa também é válida: ninguém é obrigado a querer te publicar ou a se lembrar de você caso você decida não publicar.

Esse é um dos terrores de se aventurar pela escrita, e também uma de suas maiores delícias: ao mesmo tempo que nada garante que você chegará onde quer com sua escrita ou que alguém irá se importar com aquilo que você faz, isso também atribui um valor muito especial para os momentos em que alguém te lê e te dá uma resposta sobre seu trabalho – seja ela positiva ou negativa.

Ter a atenção de um leitor é algo bastante especial. Escritores devem valorizar isso.

Para concluir, acho que nada mais conveniente do que estas palavras de Mario Quintana:

“Ser poeta não é uma maneira de escrever. É uma maneira de ser. O leitor de poesia é também um poeta. Para mim o poeta não é essa espécie saltitante que chamam de Relações Públicas. O poeta é Relações íntimas. Dele com o leitor. E não é o leitor que descobre o poeta, mas o poeta é que descobre o leitor, que o revela a si mesmo.”

E aí? O que vocês tem feito para descobrir o seu leitor?

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Aproveite ainda para ler:

Lembrando que se você tem alguma pergunta, entre em contato pelo e-mail ou pelo facebook, será um prazer ter você participando do meu blog  🙂

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