Poemas Selecionados: 2013

Post Mortem
(Pra Luiza)

O vigésimo primeiro tiro
não foi ouvido por ninguém
que não fosse a própria
calçada suja, de sangue
e poeira.

Sobre ela, nada que é importante acontece.

Talvez seja por isso
que o vigésimo primeiro tiro
não tenha sido ouvido por ninguém,
não tenha sido falado por ninguém,
não tenha sido retirado
da ferida e levado
para autópsia.

Talvez seja por isso,
mas talvez tenha a ver com a cor
do defunto e com a cor das notas
em sua carteira.

(Sussurram os urubus alguma melodia
que se parece com os ganidos dos cães
sem casa, sem coleira e sem raça).

Liberdade! Gritou a boca
antes do primeiro estrondo que
rasgou o silêncio (do ar e da alma).

Liberdade desse mundo cinza
liberdade das amarras que nos
são impostas todo dia
liberdade para viver
sem se arrastar.

Liberdade! Gritou a boca,
mas a única boca que realmente
foi ouvida naquela noite
estava em overdose.

O vigésimo primeiro tiro
não foi ouvido por ninguém,
mas todos sempre comentam sobre aquilo
que jamais conhecerão.

Dizem que foram vinte tiros
e uma outra dor que atravessou
diretamente o peito do mundo.

No sangue,
alguém leu a palavra “igualdade”.

A Terra Pisada

O cão morreu na rua de cima.
Eu não ouvi os seus latidos,
nem vi seu rabo balançar,
mas ainda sim sei que está morto;
vi seu corpo caído na calçada.

O cão morreu na rua de cima.
Vi seu corpo caído na calçada
enquanto a chuva molhava
seu pequenos olhos abertos
e minha calça jeans…

Eu, caminhando por seu corpo,
continuei a viver, eu, que contemplei
seu corpo caído e apenas caminhei.

Eu apenas caminhei…
e ainda assim a chuva caiu
e o vento soprou
e a terra…
a terra foi pisada por nós.

Mas a vida aceitou suas verdades
e não enterrou os meus desejos.

Eu sou um eterno memorial
a caminhar pelo mundo.

Eu sou o livro que não finda
e o lobo que não late nas pradarias
e nos vales.

Carrego comigo a coragem de ser mundano
e olhar nos olhos os meus semelhantes
(todos comigo se parecem ou parecerão
em algum momento da minha breve existência).

Carrego comigo o barulho que rompe com
o velório das nuvens e com o sermão dos pássaros,
bem como carrego todas as histórias que
a mim já foram contadas, por mim já foram vistas,
e as histórias que eu sou…

Eu sou um eterno memorial
a guardar a história dos homens
e dos seus corações.

O cão morreu na rua de cima,
e ele está aqui, sinto estar,
se não agora, em algum momento
que também está em mim.

Eu sou a tempestade e a mim sempre restará
a opção de enterrar os pés e deixar que a água
me faça crescer.

Do que Resta, Enterradas as Asas

Vejo numa última madrugada
a mariposa morta sobre a pia,
suas asas esticando-se até minha mão
cheia de marcas, idade,
idade guardada em células que troco
com o defunto enquanto rezo
seu silencioso funeral.

Enterro-a ao lado do coqueiro,
perto de onde o cão está deitado,
deitado como os mortos, mas vivo,
respirando e sentindo o calor
dos próprios pelos, sentindo o calor
sem jamais poder voar.

(A mariposa, antes de morrer,
provavelmente havia ido longe,
mais longe que eu jamais irei).

Ao menos, sem as asas para bater,
resta ao homem os caminhos da terra,
as estradas construídas outrora
para que se ligassem os mundos,
os carrinhos de mão, as charretes
e os carregamentos de tabaco e de cachaça.

Restam as palavras, servas não apenas
dos poderosos, mas também esperança
dos homens mais simples e das mulheres
que contam umas às outras as lendas
do cotidiano, que comentam sobre
o preço da carne, que dizem uns aos outros
sobre como são bonitos seus filhos
e como são sofridas suas labutas.

Resta que se convertam lágrimas em prosas,
que se convertam idiomas em sentimentos,
em histórias, em almas tão distintas
quanto são distintos os planetas e
as bolhas que se formam nos mares.

Resta que se olhem nos olhos os bons amigos,
que se deixem gastar pelos desperdícios os amantes,
que deixem a voz estourar-lhes as gargantas
e atravessarem ouvidos como sangue jorrado
sobre o campo das plantações de feijão.

Resta a mariposa na terra depositada
junto a animais sagrados e espíritos orgânicos,
a missa que os abutres guiam e os padres choram.

Resta a canção diária que cantamos,
a canção que ainda há de ressuscitar em versos brutos
tudo aquilo a que nos dispomos a amar.

Qualquer

I.
A queda demorou para acontecer.
o marinheiro, já desgastado pela terra,
pelas inacabáveis questões deixadas pela terra,
entregou-se ao mar como a alma que se entrega
aos paraísos infindáveis do tempo.

“Adeus”, disse ele ao beijar a face
de cada um daqueles que lhe acompanharam
até aquele momento incontornável da vida:
“adeus, e que a vida lhe seja grata”.

Que a vida lhe seja grata
e lhe deixe sentir o vento a bater no rosto…

Que a vida lhe aponte os caminhos,
e que os caminhos lhe sejam incertos,
pois que a incerteza é a única verdade
imutável nesse mundo e no próximo.

O marinheiro entregou-se ao mar,
e o pássaro cantou, ao longe,
o primeiro sinal do sol.

II.
Um sol artificial não poderia, jamais,
dar conta dos ritmos que as danças
impõem para a dança.

Mas o sol é real, e nos queima.

O sol é real, nos queima,
e fornece o alimento para toda a vida
que neste planeta se instaura.

O sol é real e nos queima,
mas nossa podridão pode ser poética,
e então ninguém olharia para nós com desprezo.

Um verso.
Uma estrofe.

O humano se apaga.
O humano pulsa.

O humano, apenas um brinquedo
desse conceito que chamamos eternidade.

III.
A imagem que tenho de mim
jamais será vista refletida no espelho.

Você, no entanto,
pode ser vista
refletida nos meus versos.

IV.
Vermelho,
como o céu em fim de tarde.

Fim de tarde,
início da noite.

O início daquilo que, por muitos,
sinaliza o fim de um ciclo,
o momento em que se fecham as memórias
em torno de nós mesmos e que nos deixa
sem nenhum pensamento;
tudo é sonhar.

Tudo é sonhar,
e areias que se erguem
em forma de palácios.

V.
Nos palácios esconderam-se os nobres.
nas ruas esconderam-se os humanos.

VI.
Os vícios também são partes de nós.

No entanto, o vento sopra
e nenhum vício há no homem
que se põe a dormir sem cobertas
nas ruas abandonadas da cidade.

Os vícios também são partes de nós.

Viciei-me, é claro,
em escrever versos tristes.

Viciei-me, é claro,
em sentir você sussurrando
nos momentos em que penso estar sozinho.

VII.
Suspira meu pulmão.
respira minha alma.

VIII.
Um último olhar para os olhos dos santos,
e caio vencido aos pés da noite inefável.

Nada que eu falo faz sentido,
mas quem é que nesse mundo de imagens
está verdadeiramente preocupado
com o que dizem as palavras que escrevo?

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