Poemas Selecionados: 2014

Gratidão

Eu quero que reste do meu corpo
apenas o suave perfume de minha gratidão.

Eu quero que minha voz seja como a embarcação
que se deixa levar pelo mar ao encontro das praias
e que o coração de cada um de vocês
seja como um grão de areia a segurar meus pés
para quando eu adentrar as ilhas.

Eu quero dentro de mim todos os planetas,
todas as estrelas, e todas as histórias.

Como os continentes que seguem flutuando,
também meu corpo flutuará na profundeza das terras
quando o meu tempo tiver passado,
e no entanto eu ainda estarei correndo
à procura dos abraços de cada pessoa que eu conheci
e de cada pessoa que eu ainda tenho de conhecer,
pois eu sou a compaixão,
e a luz do mundo ilumina meu caminho.

Eu sou a vela,
e quero que minhas palavras sejam como chamas
que queimam as mãos de meus inimigos
até que eles olhem para elas
do modo como eu as sinto.

Que cada verso seja um incêndio
e que coloque em ruínas o cinza do mundo,
ao mesmo tempo em que brilham coloridas
as danças da luz, meu corpo se debruçando
sobre a História de toda a Existência.

Que cada estrofe seja uma mordida
a arrancar pedaços da carne que se perdeu,
no mesmo instante em que saboreia
os gostos da pele num momento de paixão selvagem
que meus instintos me ensinaram a desejar.

Um dia os gritos hão deixar de ser apenas de guerra
e se tornarão grandes cânticos de apoio mútuo.

Um dia os longos versos hão deixar de ser sobre preconceitos
e se tornarão enormes relatos de amor.

Um dia todos hão de entender que o volume de minha voz
não é mais alto que os outros para impor minha vontade,
mas para mostrar-lhes caminhos que deixaram de ser trilhados
e que podem voltar a florescer no peito humano.

Um dia hei de fechar os meus olhos pela última vez,
e nesse dia eu espero saber que minha maior queda
não foi em cima de um palco ou em um sarau,
que minha maior vitória não foi ser reconhecido
pelos críticos ou pelos outros literatos,
que o ápice da minha vida não foi ter escrito
poemas a serem lembrados para toda a eternidade.

Eu espero não lembrar do rosto de vocês,
não porque eu não me importo com as suas vidas,
mas porque terei certeza de que seguem sendo maravilhosos.

Eu espero não lembrar de como se fala minha língua,
não porque nela eu não possa falar sobre a beleza do mundo,
mas porque sei que nenhum verbo é capaz de transmitir o que eu vivi.

Eu espero que, no dia em que
eu fechar os meus olhos pela última vez,
eu já não espere.

Sim,
eu quero que reste do meu corpo
apenas o suave perfume de minha gratidão,
que é tudo o que posso oferecer…
e tudo aquilo que eu sou.

A Harmonia Entre os Seres

Ainda que do desconhecido
se fizessem todas as relações humanas
e todos os rostos fossem próximos,
quem haveria de dizer
que conhece todos os seres
em sua plenitude?

As portas se mantém abertas
mas nem sempre se abrem os corações,
e a cada esquina pode ser
que o vento já não sinta
mais vontade de soprar
– você trancou as janelas,
mas se esqueceu
de que entre dois corpos
sempre se abre uma fresta.

Lá de fora caem as folhas
e também lá fora cai meu corpo,
sempre andando, sem nunca parar,
sempre caindo, sem nunca chegar
no lugar exato em que o meu “eu”
se desfaz em suas mãos.

A harmonia entre os seres foi desfeita
no momento em que abrimos os nossos olhos
e fizemos morrer a ponte que restava
entre o ser e o existir, então
deixa estar.

Domesticação

Eu nasci livre e selvagem
numa sociedade de domesticação.

Eu nasci árvore,
nasci lobo-guará,
pato-mergulhão,
nasci com as mãos enfiadas na terra
pra fazer crescer a vida,
nasci com os pés mirados pro céu
que é pra não ter medo de voar,
nasci com zonas erógenas livres
pra dançar a dança primeira
da vida.

Aprendi a me molhar no rio
e a sentir a chuva caindo no corpo
antes de saber o que era luz elétrica.

Aprendi a rastejar como bicho
e a descascar um milho
antes de aprender a comprar num fast food.

Mas nada disso aqui importa, viu?
Nada disso aqui dá dinheiro.
Nada disso é suficiente
para quem é civilizado.

Suficiente seria erguer uma estrada
e ensinar o mundo que ele também
tem que ser domesticado,
como todos somos desde pequenos.

Suficiente seria deixar secar
as nascentes até secarem também
as nossas existências.

Mas nada disso aqui importa,
nada disso aqui dá dinheiro, viu?
Nada disso dá diploma.

Pra quem só quer ir pro mercado de trabalho
aprender a ouvir o som da vida nada ensina,
aprender a sentir a textura do chão nada rende,
aprender que nada foi feito só pra gente nada garante.

Pensar é só com prédio, notebook e sala de aula.
Pensar é só com cimento, com concreto,
sem oxigênio,
sem água,
sem vida.

Eu nasci parte da natureza,
mas agora me dizem
que a natureza não importa

e ao arrancarem a floresta
também arrancam
parte de mim.

Yowã

Rastejo pelo mundo,
circunscrevendo-o em meus limites.

Sou a fronteira dos mundos,
a besta que se prepara para atacar
e para punir todos os seres
por seus atos tolos.

Sou aquele que deixa de ser eterno
para ser resquício em palavras.

Palavras se perderão no mundo
como se perde no mundo
a alma devorada pelas minhas presas,
e talvez então o poeta entenda
de onde provém suas palavras
e talvez então o artista
não mais se vanglorie
dos seus traços tão perfeitos.
Porque eu sou o mundo,
mas eu sou o medo.

Eu sou o mito incontornável da existência,
o mito que não pode ser constrangido
sem vingança,
o mito que todos querem prender
e que no entanto todos são perdidos.

Pois quando provar de minha lágrima,
que derramo neste chão com chuva,
compreenderão que nenhuma dor é em vão,
nenhum sacrifício é absoluto,
nenhum pensamento é deixado sem fim.

E no entanto vocês não estarão felizes,
e vocês irão querer mais,
e mais,
e infinitas existências,
tal é a sina daqueles
que circunscrevem em palavras
a serpente rainha
a serpente sem nome
a serpente que tudo é
que sobre tudo rasteja
que devora o corpo de Yowã
enquanto o corpo do homem se perde
abatido pelo desejo
de se encontrar.

Mas fora de mim não há nada.

Nada que não exista
jamais poderá ser mostrado
e nada que os versos digam
jamais representarão
parte de mim.

Resta, a vocês, o desejo último
de alcançar a morte, e então me alcançar.

Mas também aí não encontrarão a existência,
pois eu sou ela, e tudo sou eu,
e vocês jamais encontrarão
a melhor forma
de descrever
o fim.

Atos de uma Língua de Madeira

A língua que falamos
possui tanto de corpo
quanto possui de palavra.

Pelos portões do verbo
atravessa o arrepio
de segredos sussurrados
no ouvido
e se rastejam
os braços balançantes
como serpentes.

Duas pessoas que se olham
enquanto exercem a incontornável tarefa
de se fazerem entender
concordam ou discordam entre si
também no pulsar do seu coração,
no frio de sua barriga
ou nas dores de sua cabeça.

Como um deserto a ser atravessado
é a sentença, a frase, a oração
– que pode ou não servir
para se dirigir a algum deus ou deusa;
para evocar os espíritos da natureza
ou para pronunciar a ordem
para que se destrua toda uma floresta.

Alguns atravessam o deserto vagarosos,
pontuando em cada palavra sua lentidão.

Alguns reinam como lagartos-reis
e são colocados em altos tronos
por supostamente dominarem a fala,
à qual todos invariavelmente
estão subordinados.

Sob a complexa estrutura do castelo
jaz a simplicidade intrínseca do humano,
a simplicidade dos homens e mulheres
e dos indecifráveis intermediários
que são as pessoas de verdade,
as pessoas das línguas de madeira
que carregam nas costas
cada qual a sua ilha
de hormônios
de suor
de interminável arrependimento
de dizer aquilo de que não tem controle
de se renderem ao impulso
dos complexos com dominantes
e das tentações
do dizer.

As palavras falharão,
e com elas falharão as pessoas
na realidade de suas próprias peles.

As palavras falharão,
e com elas falharão as memórias
supostamente dispersas
mas revividas num ato de esquecimento.

As palavras falharão,
e nelas se perderão os corpos,
mãos se afastando como os continentes
quando se desfez no mundo a pangéia
ou quadris se aproximando
para o silenciar da morfologia
e início da dança primeira.

A língua que falamos
é palavra, é corpo
é tudo aquilo
que dispensando
a expressão,
ainda não pode ser dito…

e talvez nunca seja.

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