Poemas Selecionados: 2015

Rua

Quando estou cansado
deixo que as ruas da cidade
escrevam os meus versos para mim:
elas são iluminadas pelas estrelas
há mais tempo do que minhas mãos,
e apesar de todas as pessoas
pisarem nelas,
elas ainda assim
não deixam de fazer
aquilo que deve ser feito.

Entorto minhas costas por cima do papel
e contemplo o vazio daquela página:
preencho espaços com as minhas linhas
com os meus pontos
e os meus sonhos que não cabem
dentro de minha cabeça.

Sigo sonhando que não sonho sozinho
e sacrifico minhas horas
fazendo aquilo que me faz
para as pessoas que me fazem
– faça sempre o seu melhor
ou nem faça nada.

Chova, seja como um oceano
ou como algo que seja o mais parecido
com o mundo que existe em você.

A felicidade não é algo permanente
e as dores também precisam existir,
mas se você desiste agora
como vai saber para qual direção
deve ser o próximo passo?

Mas deixa, que o vento há de te contar histórias melhor que eu
o fogo há de te aquecer mais do que as minhas palavras
e a água… a água há de te ensinar
que é preciso preservar aquilo
que te mantém respirando.

Permita-se a chuva de estrelas
permita-se a noite beijada pelo fim da tarde
permita-se correr a vida como um lobo
permita-se uivar para a matilha
quando todo silêncio se fizer ditador.

Mesmo que ninguém veja a árvore cair em meio à floresta
e mesmo que ninguém ouça os pássaros cantarem sozinhos,
a árvore ainda deixará suas marcas sobre o mundo
e os pássaros ainda terão feito seus rituais diários
em celebração da vida que não se deixa cessar.

Nunca há um real motivo para desistir.

Oração Yorubá

Se for para naufragar,
que seja na maior das ondas
que suas mãos já construíram,
Janaína.

Que seja depois de uma longa caminhada
numa tarde em que a solidão
termina em companhia
e o amor é celebrado na intimidade
de dois corpos invisíveis
a qualquer pessoa que nele não caiba.

Que seja longe da praia,
em águas que ninguém além destes olhos tenha navegado,
em ilhas que ninguém além destes pés tenha sentido,
em beijos que nenhuma ave atrás da caça se deixou beijar.

Neruda, apenas o primeiro dos portos.

Meu destino é terra.

Eu quero virar mar
ao lado de Maria,
perto da hora de dormir,
quando nosso amor se faz maré
e meu corpo é levado pelo dela.

Virar mar pela manhã,
quando os olhos dela estão fechados
e eu a aprecio como o mais lindo
de todos seus milagres.

Tudo, Janaína, tudo
se banhou uma hora em seu perfume
se desfez um momento em sua busca
se partiu um final em seu túmulo de peixes,
sem que no entanto escorresse lágrima sequer
que não fosse de alegria
e de paixão a escorrer
pelos lábios.

Mas quando for hora de amar,
Janaína,
cuida para que tudo seja início,
tudo seja céu e tudo seja volta.

Cuida para que os domingos
sejam vividos em presença,
e para que meus versos
jamais sejam tomados como maiores
que a vida.

Cuida para que eu e a menina
dancemos sempre ao som do teu cantar,
por que ao amor tudo oferecemos,
pela paixão tudo ofertamos,
na gratidão tudo erguemos.

E assim tudo será, Janaína,
tudo a apontar ao céu quando o desejo for voar,
tudo a ancorar quando a sede for mergulho,

tudo a se queimar quando a vontade for o fogo,
tudo a se tocar quando o sonho for a pele,

tudo a se expandir quando no encontro formos um.

Assim tudo será.

No amor,
tudo será feito.

Fôlego

Ela se debateu contra a terra
como uma nuvem de mil toneladas
e se levantou leve como o próprio vento
que empurrava os fios de seu cabelo
para todas as direções do mundo.

Ela se debateu enquanto seu corpo
mergulhava a grama feito uma nuvem de pássaros
e as palavras do poeta jorravam pelas sombras
e se arrastavam até as pontas de seus pés.

Ela se debateu como se debatem
as pedras atingidas pelas cachoeiras,
deixando alguns de seus pedaços
pelo chão e pela poeira
que agora viaja por algum lugar
entre os sonhos e as memórias
das árvores e da lua cheia.

Ventre.

Nascido em meio ao caos de corpo e voz,
algo também se debatia nos olhos à volta.

Seu corpo esticado ao chão
me lembrou das limitações
do meu próprio corpo
e me fez pensar no descaso
que temos com nossos próprios templos.

Seu corpo virado de ponta cabeça
não me lembrou mais nada.

Ela se debateu como relâmpagos
atingindo a costa do litoral
e se debateu como os sinos da igreja,
mas as únicas orações que seu corpo vocalizou
foram os movimentos das luzes
dançando abraçadas com as trevas
daquele começo de maio.

Ela se debateu contra a terra
como uma nuvem de mil toneladas,

e segue se debatendo em algum lugar
dentro do peito.

E pesa.

Entrega

Olhando nos teus olhos,
eu notei que observá-los
nunca foi meu objetivo final.

Olhando nos teus olhos
procuro sentir aquilo que constitui
o seu coração e aquilo que faz
com que ele pulse mais rápido;
procuro sentir a pequena garoa
que faz com que as sementes
dos teus sentimentos cresçam
e se tornem uma grande árvore.

Sabendo disso tudo,
eu poderia plantar em ti o meu jardim,
sem medo de que ele fosse consumido
por más energias ou por temporais
inesperados.

Você já esteve nos lábios de Raul,
mas é no som da sua própria melodia
que eu ouvi Gita cantando,
ainda que ontem tenha sido no silêncio
que eu troquei versos com você
e que seja na noite e não no dia
que nossas conversas são forjadas
pouco a pouco como vasos de cerâmica
cujo vazio é o infinito,
prontos para receberem a imensidão
que ainda resta
para ser navegada.

E é no relato surdo-mudo da grama
que eu vi escrito que o inexplicável
só não foi completo por falta
de quem tentasse o completá-lo,
mas a gente sabe que a gente tenta
porque nessa vida não basta apenas caminhar
se não for para que uma hora
outras pessoas caminhem em nós,
pois não somos muito mais que rotas
que ora se fazem retas
ora se fazem oblíquas,
desinibidas conquistas realizadas
com a simplicidade
e a beleza de Gita,
a voz que em meio a tantos abismos
chama para que a gente se atire
sem medo de encontrar a felicidade
pois se há um segredo na existência
ele já foi desvendado quando criamos
a palavra “entrega”.

Contempla-Estrelas
(para Ananda Jacques)

Na dança dos seus dedos
vi dedilhar o amor de Urano
e a marcação do seu tempo
brilhou feito galáxia
no coração das leis do mundo.

E eu nem te vi brilhar
nos limites da sua pele,
mas as paredes do teu quarto
se alinharam para te ouvir
e eu as escutei chorar
antes mesmo de acabar seu sono
junto na cama com o sol.

No meu pé,
a água do chuveiro forma um espelho
e hoje eu me pareço muito com a lua
nos tempos em que ela
dançava grudada com a Terra.

Veja no céu
o nosso passado:
ele presenciou a costura da História.

Veja nas nuvens
a nossa idade:
como as nossas células,
também elas se desmancham.

Veja nos astros
o nosso amor:
eles também criam coragem
porque sabem que toda atração
pode ser caso de perigo.

E se quiser, olha também pra cá,
e vê se tira do meu peito
um segredo ou outro
que possa orientar sua jornada
sem fazer de mim
um livro com começo
meio e fim,
para que eu às vezes
a surpreenda como luz
a alcançar a janela
do teu ser.

Eu não tenho dúvidas que lá de cima
uma estrela tenta entender sua vida
olhando aqui para você,
para seu coração,
para a sua rota que,
mesmo incerta,
incendeia os caminhos da vida.

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